Todos temos rótulos para chamarmos de nossos. Eles podem tomar diversas formas: gênero, sexualidade, macro (e micro) posições políticas, fandoms, gostos… Parece não haver fim para a quantidade de rótulos que uma pessoa pode acumular. Elas são úteis, veja bem. De um ponto de vista objetivo, especialmente dentro da política, delimitar seu campo e categorizar seus pares, semelhantes e inimigos é fundamental. Subjetivamente, também, os rótulos cumprem uma função que muitos diriam fundamental, o de pertencimento a uma comunidade, encontrar outros parecidos consigo, muitas vezes a partir de um signo (uma bandeira lésbica, uma camiseta de banda, um bóton de anime).
O problema começa quando rótulos viram caixinhas.
Uma caixa é algo que pode ser utilizado para categorizar objetos, e aqui coincide com o rótulo. Porém a caixinha também restringe e prende seu conteúdo. Delimitador de espaço. Prisão.
Pensemos por um momento sobre bios em redes sociais. Para além do grande problema de resumir uma pessoa em poucas palavras (criminoso!), é comum ver-se utilizadas caixinhas para se auto-descrever. Em si isso não é um problema, contudo em uma sociedade cada vez mais pautada pelo digital do que pelo real, as bios se confundem com a pessoa, em um processo psíquico adoecedor. Falando de minha própria experiência, adorava me rotular. Estava sempre a procura de rótulos novos para adicionar à coleção e estampar lindamente em meu peito (-bio). Só não percebia à época que não eram rótulos, mas sim caixinhas. O meu ser estava se diluindo nelas, quem seria eu? a não ser uma mulher trans, bi, neurodivergente, marxista (-leninista-maoista ou trotskista ou communizer ou anarquista ou… ou…). Identidade por afirmação.
Ao decorrer do tempo, não havia mais uma pessoa, mas sim caixinhas dentro de caixinhas dentro de caixinhas (matryoshka!). É claro que devido a uma particularidade minha própria identidade era, e ainda é, nebulosa. Uma das respostas que encontrei foi essa (não-resposta). Digo em alto e bom som, porém: quebrem suas caixinhas.
É como sair de uma prisão auto construída, perceber o mundo de outra perspectiva, tentar delimitar-se pela negativa: Quem sou eu? Não sou homem. Não sou mulher. Não sou hétero. Não… Não… Acredito que essa saída seja mais saudável, ao menos para mim é. O processo de subjetivação, afinal, acontece pela negativa. Inaugura-se, então, um indivíduo.
O caminho para minha subjetivação completa ainda está acontecendo. Estou presa em eterna contradição com o Outro. Constante luta. Veremos porém se, ao dar este passo, aproximar-me-ei da buscada Independência ou se continuarei digladiando com o Outro.
Deixe um comentário